A campanha arqueológica das Torres descobre ums estribos de cavalo que achegam novas chaves sobre a ocupação mediaval do sítio arqueológico
• As peças surgiram durante a intervenção arqueológica sobre um pavimento associado a materiais dos séculos XIII e XIV e reforçam a hipótese de que o recinto medieval foi reutilizado durante a Guerra da Restauração.
Xurxo Salgado e David Sobrino/Tomiño
A campanha arqueológica que o projeto Fortalezas da Fronteira desenvolve no sítio arqueológico de As Torres, em San Miguel de Taborda (Tomiño), acaba de documentar uma das descobertas mais relevantes desta edição: vários elementos metálicos de caráter militar, entre os quais se destacam uns estribos de cavalo, localizados num contexto arqueológico que permitirá avançar na cronologia e na evolução deste complexo defensivo.
“O primeiro passo foi explicar o que não se deve fazer com um detetor de metais e de que forma a sua má utilização afeta os sítios arqueológicos. Depois, realizámos uma atividade formativa para que os participantes conhecessem a forma correta de utilizar esta ferramenta e, a partir dessa prospeção, planeámos a intervenção arqueológica”, explicou.
Foi precisamente numa das zonas assinaladas por essa prospeção que surgiram os novos materiais metálicos. Entre eles destacam-se uns estribos de cavalo, encontrados sobre um pavimento perfeitamente conservado. Segundo Blanco-Rotea, a sua posição e o seu estado de conservação permitem formular novas hipóteses sobre a evolução do sítio arqueológico.
“Os estribos apareceram juntos e partidos, pelo que pensamos que foram descartados e reutilizados, tal como outros materiais de construção, como parte da preparação de um novo pavimento”, indicou.
O contexto em que apareceram é especialmente relevante. O pavimento documentado apresenta uma primeira base de seixos e argila, sobre a qual foi disposta uma camada compactada de argila amarelada. Sobre esta encontra-se uma segunda pavimentação, elaborada com abundante telha triturada e submetida a um processo de queima para endurecer a superfície.
Segundo a diretora científica do projeto, este tipo de pavimentos permitia criar superfícies especialmente resistentes, capazes de suportar a circulação de materiais pesados associados à atividade militar, especialmente à artilharia.
As primeiras evidências apontam para que este contexto possa corresponder à Baixa Idade Média. Juntamente com os estribos surgiram abundantes fragmentos cerâmicos que, de forma preliminar, são datados dos séculos XIII e XIV, coincidindo com a cronologia dos materiais documentados durante a campanha de 2025.
“Até ao momento, todos os materiais cerâmicos que estamos a recuperar nesta zona pertencem aos séculos XIII e XIV. Agora é necessário limpá-los e estudá-los detalhadamente, mas os contextos são muito semelhantes aos que já conhecemos de outros castelos medievais”, explicou Blanco-Rotea.
DATACÕES ABSOLUTAS PARA RECONSTRUIR A HISTÓRIA DO SÍTIO ARQUEOLÓGICO
Com o objetivo de confirmar estas hipóteses, a equipa está a desenvolver um amplo programa de recolha de amostras para datação absoluta. Para esse efeito, foram recolhidas amostras da argamassa do primeiro pavimento, que serão analisadas através de luminescência opticamente estimulada (OSL) pelo investigador Jorge Sanjurjo-Sánchez, da Universidade da Corunha. Serão também analisadas a camada superior rubefactada — que permitirá datar o momento da queima do pavimento — e numerosas amostras de carvão recuperadas durante a escavação.
Estas análises permitirão determinar quando foi construído cada um dos pavimentos, se ambos pertencem ao mesmo momento cronológico e em que momento ocorreu o incêndio que endureceu a superfície.
UM SÍTIO ARQUEOLÓGICO CADA VEZ MAIS COMPLEXO
As novas descobertas reforçam a ideia de que As Torres foi um espaço ocupado e transformado ao longo de vários séculos. Segundo explicou Blanco-Rotea, cada campanha confirma com maior clareza que a fortificação da Guerra da Restauração reutilizou um assentamento medieval anterior, cuja delimitação completa ainda está por realizar.
A arqueóloga assinalou que os trabalhos realizados nos últimos dias permitiram também identificar novas estruturas construtivas elaboradas com argamassa, pedra, telha e cerâmica medieval, assim como uma possível plataforma de tiro, uma contramuralha e outros elementos próprios da arquitetura militar da Idade Moderna.
A hipótese com que a equipa trabalha atualmente é a de que parte das estruturas medievais foi desmontada para que os seus materiais fossem reaproveitados durante a construção das defesas do século XVII.
A campanha arqueológica faz parte do projeto Fortalezas da Fronteira, desenvolvido no âmbito do campo de voluntariado internacional da Direção-Geral de Juventude da Xunta de Galicia, no qual participam jovens provenientes da Galiza, de outros pontos de Espanha, de Itália, do México e da Colômbia.
O projeto é promovido pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e pelo Departamento de Novos Meios da Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela, combinando investigação arqueológica, formação, educação patrimonial, voluntariado e divulgação para continuar a descobrir a história de As Torres e da fronteira galego-portuguesa.

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