19 de feb. de 2026

PÓVOA DE VARZIM

Supplica, de Helder Luís, que terá lugar na Igreja da Lapa, Póvoa de Varzim

  A apresentação oficial será no dia 27 de Fevereiro, às 21h00. 

  Haverá também uma antestreia no dia 26 de Fevereiro e uma reposição no dia 28 de fevereiro, também às 21h00, devido ao número limitado de lugares disponíveis.

Entrada Gratuita (lugares limitados).  Bilhetes disponíveis no Cine-Teatro Garrett e na Igreja da Lapa.




Infogauda / Póvoa de Varzim

 Há 134 anos, o norte do país foi palco de uma das maiores tragédias marítimas da História de Portugal. Na tarde de 27 de fevereiro de 1892, uma tempestade ergueu-se inesperadamente e varreu o litoral, com especial impacto entre Aveiro e a Galiza. Em poucas horas, o oceano reclamou 105 vidas das comunidades piscatórias da Póvoa de Varzim e da Afurada: pais, filhos, irmãos, camaradas. Em terra ficaram mulheres e crianças, comunidades inteiras mergulhadas num luto profundo. A tempestade levou consigo vidas, mas também a esperança destas comunidades que, a partir desse dia, passaram a vestir-se de negro. 

 A tragédia desse dia ecoou por gerações. O país, profundamente comovido, assistiu à criação do Instituto de Socorros a Náufragos, fundado pela Rainha D.ª Amélia, como resposta à dor e à urgência de proteger os homens do mar. O luto, porém, prolongou-se muito para além do imediato. Durante anos, as festas populares esmoreceram, os trajes coloridos cederam lugar ao negro e os instrumentos musicais silenciaram-se. O mar, outrora sustento e promessa, tornou-se espelho da ausência. 

 É a partir deste episódio fundador que nasce Supplica, um espetáculo audiovisual criado por Helder Luís, com estreia prevista para fevereiro de 2026, na Igreja da Lapa, na Póvoa de Varzim. Integrado na residência artística MAR|PVZ19/20 e apoiado pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e pela Mútua dos Pescadores, o projeto propõe-se transformar a memória da tragédia numa experiência artística viva, imersiva e coletiva. 
 
 Mais do que um registo histórico, Supplica assume-se como uma evocação sensorial, onde música, imagem e palavra se entrelaçam para dar voz ao mar, aos náufragos e às famílias que ficaram em terra. Estruturado em sete capítulos, o espetáculo procura reconstruir, de forma poética e simbólica, os acontecimentos que conduziram ao naufrágio e as suas profundas repercussões nas comunidades piscatórias afetadas. 

 Supplica nasce do desejo de reinterpretar a memória da tragédia de 1892 e devolvê-la ao presente sob a forma de uma experiência artística partilhada. O projeto propõe-se não apenas recordar o passado, mas mantê-lo vivo, como uma súplica coletiva que atravessa o tempo, suspensa entre o mar e a terra. O espetáculo propõe uma viagem sensorial que conduz o espectador até ao ano de 1892 através de um dispositivo simbólico que funciona como portal temporal (wormhole). Esta travessia organiza-se em sete capítulos distintos, associados a momentos antes, durante e depois da tragédia. Embora a progressão seja estruturalmente linear, a experiência que dela resulta é, de certa forma, descontínua e difusa, refletindo a forma como a memória coletiva opera, feita de sobreposições, ecos, interrupções e regressos. Ao longo destes capítulos, o público é confrontado com visões visuais parciais, que surgem como vestígios atravessados por um dispositivo oracular que se abre e se fecha, permitindo penetrar na membrana do espaço-tempo. Esta instância funciona como mecanismo de revelação e mediação, abrindo acesso a diferentes camadas de tempo e consciência, sem fixar uma leitura única ou definitiva dos acontecimentos. Na introdução e nos separadores dos vários capítulos surgem pequenos textos que funcionam como marcas de passagem e pausas de leitura, acompanhando e orientando o percurso do espetáculo. Cada separador assinala um momento distinto da narrativa, convocando imagens, gestos e estados de espírito, mais do que factos ou explicações. Estes textos ajudam o espectador a situar-se no tempo e no espaço, e a entrar num território de memória sensível. Não se trata de reconstruir a história tal como aconteceu, mas de evocar o que permaneceu inscrito nas comunidades, nos corpos e na relação com o mar. Este dispositivo estabelece uma analogia deliberada com o cinema mudo que, em 1892, recorria a cartões intercalados para contextualizar a imagem em movimento. Supplica recupera esse princípio como estratégia narrativa e simbólica, utilizando o texto como mediação entre a imagem, a música e a memória histórica. Lidos em conjunto, estes textos compõem uma cartografia emocional onde o quotidiano, a espera, a esperança, o medo, a perda e o luto se sucedem como capítulos de uma experiência coletiva, abrindo brechas de sentido entre cada parte do espetáculo. Este dispositivo audiovisual materializa-se num ecrã de vídeo de grandes dimensões, acompanhado por um sistema de som imersivo de alta qualidade. A componente visual recorre a material fotográfico de arquivo, trabalhado através de um modelo computacional privado de larga escala, procurando tornar visíveis momentos impossíveis de revisitar por outras vias e revelar a dimensão social, humana e material da época e do naufrágio. O vídeo é apresentado num ecrã LED de alta definição com cerca de 6,5 metros de altura por 3,5 metros de largura, instalado de forma a respeitar a arquitetura e a sacralidade da igreja, integrando-se harmoniosamente no espaço. A sua presença aproxima-se da ideia de um monólito, numa referência ao filme 2001: Odisseia no Espaço, funcionando como um elemento exterior e enigmático em diálogo com o espaço sagrado. A música, composta exclusivamente para este espetáculo, constitui o fio condutor emocional da obra. A banda sonora de Interstellar, de Hans Zimmer, assume aqui um papel central como influência estética e conceptual, orientando a linguagem musical e o seu desenvolvimento ao longo do espetáculo. A partir dessa referência principal, a partitura dialoga com a escrita contrapontística e as obras para órgão de Johann Sebastian Bach, com a ideia de leitmotiv de Richard Wagner e com a dimensão orquestral e cósmica de Gustav Holst, em The Planets. Estas referências cruzam-se com a herança do minimalismo do século XX, nomeadamente em Steve Reich e Philip Glass, visível na repetição, na sobreposição rítmica e na construção gradual da densidade sonora. O órgão de tubos, entendido como o primeiro grande sintetizador, assume-se como instrumento central, estabelecendo uma ponte simbólica entre a terra e o céu e convidando à contemplação da vida como experiência espiritual. A música é apresentada através de um sistema de som quadrifónico, envolvendo todo o espaço da igreja. Quatro altifalantes satélite, posicionados nos quatro cantos da nave, asseguram clareza e definição sonora, enquanto dois subwoofers, colocados na frente e atrás da plateia, reforçam a presença física das frequências graves. Esta configuração permite que o som se mova pelo espaço, criando sensações de proximidade e distância que intensificam a imersão do público. A conjugação do ecrã de vídeo com o sistema de som quadrifónico cria um ambiente envolvente onde a imagem parece flutuar no espaço e o som ocupa toda a nave da igreja. Esta experiência transforma o altar num portal de memórias, silêncio e escuta, ativando o espaço sagrado como lugar de evocação coletiva. Supplica afirma-se, assim, como um gesto de memória ativa, uma experiência artística que não procura explicar a tragédia, mas habitá-la, como uma prece comum suspensa entre o mar e a terra, entre o humano e o eterno.

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