Presidente da República destaca Vila Nova de Cerveira como território de fronteira que une e como exemplo de ambição, cultura e coesão territorial
Ao entrar na sua 24.ª edição, a Bienal foi apresentada como exemplo de persistência, criatividade e capacidade de afirmação cultural fora dos principais centros urbanos
Fotos: MVdeC
Irene Pinheiro/Vila Nova de Cerveira
O Presidente da República, António José Seguro, destacou, este domingo, em Vila Nova de Cerveira, a identidade singular do concelho enquanto território de fronteira, sublinhando a sua capacidade histórica para transformar a proximidade com Espanha num espaço de encontro, cooperação e criação.
A intervenção do Presidente da República ocorreu no âmbito da visita oficial a Vila Nova de Cerveira, com receção nos Paços do Concelho, seguida de uma visita à XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira, dedicada ao tema “Territórios sem Fronteiras”, numa ocasião em que defendeu que a fronteira deve ser entendida não apenas como uma linha geográfica, mas como um espaço de contacto entre pessoas, culturas e ideias.
“Quem vive na fronteira aprende cedo - e desaprende cedo - que o outro lado não é uma ameaça: é uma vizinhança”, afirmou, salientando que Vila Nova de Cerveira “sempre soube ser fronteira sem se fechar”.
Para o Chefe de Estado, essa experiência assume particular relevância num momento em que “as fronteiras voltam a ser discutidas”, apesar da livre circulação, da Internet, da comunicação instantânea e da crescente interdependência entre sociedades.
Nesse contexto, considerou que a Bienal de Cerveira adquire uma “urgência” renovada e destacou a pertinência do tema “Territórios sem Fronteiras”, enquanto reflexão sobre a fronteira como construção mental e sobre a capacidade da arte contemporânea para ultrapassar as contingências da geopolítica, das guerras e das divisões.
O Presidente da República sublinhou ainda o papel da arte na identificação das “linguagens do futuro”, defendendo que o poder político deve estar atento aos sinais que a criação artística transporta e às questões que antecipa.
Uma Bienal construída pela persistência e pela confiança
Na sua intervenção, o Presidente da República recordou a génese da Bienal de Cerveira e o papel de Jaime Isidoro e de um grupo de visionários que acreditaram ser possível criar, num território periférico, uma instituição cultural de dimensão nacional e internacional.
“Um grupo de sonhadores decidiu que Vila Nova de Cerveira não seria apenas uma fronteira geográfica, mas uma fronteira do pensamento e da criação. E a Bienal é a prova de que essa aposta foi ganha”, afirmou.
Ao entrar na sua 24.ª edição, a Bienal foi apresentada como exemplo de persistência, criatividade e capacidade de afirmação cultural fora dos principais centros urbanos.
“A Bienal é também uma razão para termos confiança”, afirmou o Presidente da República, destacando que a sua existência resulta de uma verdadeira “construção humana”, feita por mulheres e homens que acreditaram no poder da arte para deixar em Vila Nova de Cerveira “uma palavra, uma poeira, uma imagem, uma respiração de beleza e de interrogação”.
A relação entre arte e território esteve, assim, no centro da intervenção presidencial, que terminou com uma imagem particularmente associada à identidade cerveirense: “Há fronteiras que os homens constroem para separar. E há obras que os homens constroem para aproximar. A Bienal de Cerveira é uma dessas obras”.
“Ser pequeno em população não é ser pequeno em ambição”
António José Seguro dedicou também parte da sua intervenção aos desafios enfrentados pelos territórios do interior e da raia, nomeadamente o despovoamento, o envelhecimento e a distância relativamente aos grandes centros de decisão.
“Ser pequeno em população não é ser pequeno em ambição. E Cerveira é disso um exemplo”, afirmou. Defendeu, neste âmbito, uma maior atenção e confiança do Estado nas autarquias locais, sublinhando o conhecimento que estas possuem sobre as suas comunidades e necessidades.
“Um país coeso não se mede pela força das suas capitais, mas pela vitalidade dos seus territórios”, afirmou, acrescentando que Portugal “precisa de Cerveiras” - de comunidades capazes de resistir, reinventar-se, atrair novos habitantes e criar condições para que aqueles que querem permanecer possam fazê-lo.
O Chefe de Estado destacou ainda a identidade dual do concelho, entre a História e a contemporaneidade, sintetizando-a nas expressões “castelo e arte”, “raia e ponte”. “Essa dupla identidade - entre a pedra do Castelo de D. Dinis e a liberdade das telas e das esculturas da Bienal - faz deste concelho um lugar singular no mapa de Portugal”, afirmou.
Concluiu, por isso, que Cerveira é “uma terra de fronteira que nunca aceitou que a fronteira fosse o seu limite”, defendendo que o concelho deve continuar a assumir a sua dupla vocação como “guardião da fronteira que une, e não da fronteira que separa”.
Presidente da Câmara Municipal agradece presença e proximidade
Na receção ao Presidente da República, o Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira destacou a relação de proximidade do Chefe de Estado com os territórios e as populações.
“Sabemos que é o Presidente de todos os portugueses, mas reconhecemos também um Presidente que tem feito da proximidade uma forma de estar, do diálogo discreto uma forma de construir e da tranquilidade uma forma de servir”, afirmou Rui Teixeira.
O autarca cerveirense sublinhou igualmente a importância da presença presidencial no contexto da Bienal Internacional de Arte de Cerveira, classificando o evento como um espaço de “liberdade, de criação, de encontro e de diálogo entre povos e culturas”.
Num momento marcado, segundo o autarca, “pela divisão, pelo ruído e pela incerteza”, foi salientada a importância de uma voz institucional associada à serenidade, ao equilíbrio, à paz, à confiança nas instituições e ao aprofundamento da democracia portuguesa no contexto europeu. O autarca deixou ainda um convite ao Presidente da República para regressar ao concelho: “Regresse a Vila Nova de Cerveira. Regresse sempre”.
A visita presidencial reforçou, assim, a afirmação de Vila Nova de Cerveira como território de fronteira, cultura e criação, onde a relação com o Minho e com a Galiza se cruza com uma forte identidade local e com uma vocação internacional construída, em larga medida, através da Bienal Internacional de Arte de Cerveira.




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