PATRIMONIO
A ponte pedonal e ciclista, pros e contras
ENCONTROS POLIORCÉTICOS / Goián / Vila Nova de Cerveira
Ultrapassando a concitação de vontades, um previsível "show-off" e uma política próxima do espetáculo, convirá dizer que não tudo está esclarecido em relação à badalada ponte pedonal e ciclista. São, de facto, duas margens que continuam a ser antagónicas por várias razões. Do lado galego, estamos perante uma envolvente terminal, ainda castelológica, que visou em tempos consolidar uma fronteira instável logo após a Paz de Lisboa. Este é um dado importante.
Anos, muitos anos volvidos, afiguram-se novos elementos nesse âmbito que falam de palimpsestos cronológicos errados, obras decorrentes de concursos e de projetos que nunca tiveram em conta a obra original. À partida vamos mencionar um primeiríssimo problema, já agora, que se filia com a natureza isolada, poliorcética, longínqua se quisserem, da fortaleza de São Lourenço. O Parque do Castelinho (bateria abaluartada que nunca viu a luz) afinca-se num meio urbano e tem os problemas resolvidos quanto a estacionamento de automóveis. Tal não acontece na margem oposta, onde avizinham-se de jeito caótico aqueles que vão a banhos, animáis de estimação, veículos de duas e quatro rodas e por aí fora. Existem claros sintomas de diacronia alongada no tempo que falam, aliás, da ideia nuclear que estamos a propor.
Essa ideia é palmária. As pessoas não vêm de Goián a pé, senão de carro. Isto vai gerar um problema de ANTROPIZAÇÃO provavelmente severa em toda a quela área. Os parques de estacionamento não podem contar-se com os cinco dedos da mão. O caminho para o rio tem a pegada de velhos fortes sujeitos à servidão poliorcética do espaço (forte da Nossa Senhora da Conceição, forte das Chagas,...). Alem do mais, um antigo embarcadoiro, virado eventualmente parque, resultaria insuficiente com os seus aproximados 2.000 metros quadrados.
E a antropização traz por força situações não controláveis. A pergunta seria a seguinte: carros estacionados em dupla fileira, em cascata ou em catadupa; no revelim noroeste, no fosso Suleste e em tudo quanto é sítio, cómo raios se gere isso? Abordar-se-ia então um outro problema, bem mais premente: foi por acaso demarcada em São Lourenço a sua área de Proteção? E a sua área de Amortecimento? Onde é que estão assinalados estos espaços, como indicia o Capítulo IV, no Título II da Lei de Património Cultural de Galiza, nos seus artigos 45, 46 e 47? Existe no momento presente uma SINALÉTICA PREVIDENTE face as atuais patologias que sofre a fortaleza de São Lourenço? Evidentemente, não existem. (Caminhos de ronda ou adarves, poços, fossos alagadiços, porta do trânsito,...).
E por que O "Minho Reggae Splash", desde o ano de 2009, continua a violar qualquer legislação patrimonial, invadindo antigos caminhos cobertos, glacis e tudo aquilo que bem lhe apeteça? Encontros Poliorcéticos já contactou com a vereadoria de Património de Tominho nesse sentido. As observações do Siza Vieira devem ser tomadas com cautela aquando fala assim: " (...) a ponte não implica com a escala da fortaleza (...)", ou pelo facto de referir uma peripécia controversa em alusão ao "convite que faz a ponte a visitá-la (...)". (Esse poderia ser justamente o problema).
A Nova Carta Internacional da ICOFORT, perante tanto incumprimento, podera eventualmente parecer fundamentalista, designadamente para estes mestres do antolho. Por isso, a obra do chamado Espazo Fortaleza (onde é que ela está?...) de Pablo Gallego Picard, perfila umas horizontalidades traumáticas em betão, como simples imitação das verdadeiras, tirando proveito delas e em consonância fácil com a linha de água, com entrâncias perfeitamente desnecessárias e requebros que só acentuam a tristeza provocada por materiais frios. Uns 180 metros lineares dão molde a algo que simplesmente não faz sentido. Ao total, estamos a falar de umas 0,73 hectares ( 7.323 metros quadrados) que alteraram a horizontalidade genuina. Prescinde-se da própria fortaleza, incluindo-a num duvidoso acabamento final. Especialistas da castelologia não cesam nas suas críticas ao premio. Também foi contemplado en tempos o Sr. Calatrava... (sic). Respeitando esses pros e contras, a nova ponte não resolve os problemas pendentes de São Lourenço, aparecendo como mais um PALIMPSESTO, como um acrescentado. Trata-se duma questão de diacronias, de propaganda dirigista e talvez de oportunismo e oportunistas.





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