PATRIMÓNIO
Considerações paisagistas em Oia
(51ª parte)
ENCONTROS POLIORCÉTICOS / Oia
Pano de fundo destas considerações todas será a necessidade de um debate, de uns pros e contras, que esclareçam de vez o passo que se quere dar em tudo o que tenha a ver com o futuro de um mosteiro. Urbanização próxima, se contarmos ao mosteiro como edificação e envolvente, ameaça umas preexistências de claro e provado valor paisagista. Um Parador Nacional, ponhamos por caso, não proporia nunca uma solução urbanizadora anexa. Planos da "Kaleidos" devem voltar à gaveta e fazer a sua própria hibernação, dado tratar-se de uma graçola, de uma piada de mau gosto. Entre a pasmaceira dos oienses, a futura rotura das panorâmicas e o mau-olhado dos proprietários, devemos avançar sobre os empecilhos interesseiros que se coloquem à nossa frente. Tarefa premente será a unificação de ações e critérios, calendarização destes e ultrapassar aquilo que a imprensa mediática tem protelado estes últimos tempos.
Esta-se a impor uma charada com muitas voltas e truques. Se faz urgente travar a ideia de que a urbanização seja um produto janota, elegante ou mesmo "ecológico". Fizemos muito bem chamando a "Hispania Nostra" e faremos muito bem batendo à porta do ICOMOS. Disformidade urbana na epiderme anexa ao mosteiro determinará novas incompatibilidades, novos feísmos formais. Curso do Lavandeira só serve de pretexto e disfarce para o desmando. Aliás, sábia distribuição de recintos, de dependências, da própria planimetría cenobial, choca com a desordem seriada dos volumes prediais (são prédios!) projetados pela "Kaleidos". Poder-se-ía falar comodamente de poluição urbanizadora, de intromissão espacial num âmbito secular; sendo pois secular é também cultural, paisagista e projeção do próprio mosteiro. Supõe à partida um prévio ordenamento do território que não pode ser alterado. Importa então garantir atual estatus espacial da envolvente por forma a evitar as disparatadas propostas dos proprietários relativas a estruturas traslúcidas, pontes morfológicas sobre o Lavandeira, bem como aquele conjunto seriado de cubos.
Qual será o cartão de visita dos peregrinos e visitantes aquando vejam a "autenticidade" dum complexo hoteleiro que, ainda por cima, terá a sua anexa urbanização? Por acaso CONSTRUIR É AVANÇAR? TAL LINGUAGEM É PRÓPRIA DAS POSTGUERRAS e mesmo das políticas anti-paisagem. Arquitetura de ensaios pode fazer peripécias em outro lado. Vejam na "Kaleidos" exemplos de unidades de hotelaria no património construído militar: Ha dezenas de exemplos onde os acréscimos, os aditamentos, brilham felizmente pela sua ausência. Um deles, Forte da Conceição de Osuna (Aldea del Obispo, Salamanca) consegue em cheio a sua integração na paisagem, aliás uma paisagem militar da Ilustração. Nada indica que haja dentro dessas instalações qualquer hotel. As preexistências mantiveram-se e hotel se fez de portas para dentro.
Vamos fazer citação do filósofo alemão Heidegger. Reparem nela: "Templo alça-se num determinado lugar, num determinado enclave natural, e com o seu se encontrar aí produz uma transformação na aparência da paisagem. A pedra com que se edificou parece mais brilhante e luminosa, tornando mais patente a luz do día, a amplitude do ceu, a escuridão da noite. Esse certo alçar-se do templo realça o invisível espaço do ar. Brevemente, a obra arquitetónica modela a envolvente e a domina com a sua presença". Os gregos chamavam essa envolvente "Fisis", ou aquilo que brota, a natureza; Heidegger, da sua vez, referia o termo "Erde", a terra, sobre a qual ergue-se o "Mundo". Um "Mundo" à margem da decadência técnica e intelectual de hoje. Ninguém consegue ultrapassar até o momento tais afirmações. Mosteiro é paisagem, mosteiro procura e vive dessa paisagem. Significância cultural de Oia têm essa inviolável valência.


Ningún comentario:
Publicar un comentario